Chegamos a mais um capítulo da nossa série sobre saúde mental e emocional. Depois de falarmos sobre o cansaço e as mentiras religiosas que adoecem, sobre o medo e, no último domingo, sobre o medo de não ser aceito, hoje olhamos para um mal silencioso que virou marca da nossa geração: a ansiedade. E vamos descobrir, no Sermão do Monte, que Jesus não tratou a ansiedade como um sentimento — Ele a descreveu como um jeito de andar, um jeito de viver. E nos mostrou o caminho para uma vida mais leve.
“Por isso vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida… Olhai para as aves do céu… Considerai os lírios do campo…” — Mateus 6:25-28
Antes de avançar, vale recordar o caminho que percorremos:
Hoje damos o próximo passo. Se o medo grita diante do perigo que está na nossa frente, a ansiedade sussurra sobre o perigo que talvez nem exista — lá no futuro.
É importante distinguir os dois, porque a cura de cada um é diferente:
🔴 O medo tem endereço. Ele reage a uma ameaça concreta e presente: o cachorro que rosna, a conta que venceu, o exame que deu alterado. O medo aponta para algo que está ali, agora.
🟡 A ansiedade não tem endereço. Ela é a antecipação de uma ameaça futura e muitas vezes imaginária: o “e se” que nunca acontece, o amanhã que ainda não chegou. O medo diz “há um perigo aqui”. A ansiedade diz “e se der tudo errado depois?”.
Por isso a ansiedade é tão cansativa: ela faz a gente sofrer hoje por uma dor que talvez nunca venha — e, quando vem, já gastamos toda a nossa energia ensaiando o sofrimento.
Nem sempre a ansiedade aparece em crises. Na maior parte do tempo ela mora em gestos miúdos que nem percebemos:
E aqui um alerta para os nossos dias: a exposição constante às telas está nos treinando para a ansiedade. Os aplicativos foram desenhados para entregar estímulo imediato — uma rolagem, uma notificação, um vídeo novo a cada segundo. Com isso o nosso cérebro vai perdendo a tolerância ao vazio, à espera, ao tédio. Pesquisadores do comportamento já associam o uso pesado de redes sociais a níveis mais altos de ansiedade e a uma queda na nossa capacidade de simplesmente esperar. Aprendemos a ter pressa até do que não tem pressa nenhuma. Reaprender a esperar virou um exercício espiritual.
Veja como Jesus formula a ordem: “não andeis ansiosos”. Ele não diz “não sintais”, diz “não andeis”. Isso é uma revelação enorme: a ansiedade é um jeito de caminhar, um jeito de fazer as coisas.
Andar ansioso descreve alguém que pode fazer muito, pensar muito — e ao mesmo tempo realizar pouco, conquistar pouco sobre aquilo que tanto pensa. É muito movimento e pouca colheita. Muita agitação e pouco domínio sobre o que de fato importa.
A Bíblia nos dá um retrato perfeito disso na casa de Betânia:
“Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.” — Lucas 10:41-42
Enquanto Maria estava aos pés de Jesus, desfrutando do Mestre, Marta corria de um lado para o outro fazendo muitas coisas — e o próprio texto a descreve como ansiosa e afadigada. Repare nas duas marcas que a ansiedade deixou nela:
E esse é um dos efeitos mais perigosos da ansiedade na vida espiritual: pessoas com níveis elevados de ansiedade muitas vezes ficam sem energia para estar num culto, para orar, para ler a Bíblia e manter as disciplinas espirituais que guardam a nossa comunhão com Deus. Quanto mais ansiosos, mais distantes ficamos justamente de quem é a fonte da paz que tanto procuramos.
E Jesus, no mesmo Sermão do Monte, dá uma pista preciosa:
“…não podes tornar um cabelo branco ou preto.” — Mateus 5:36
Cabelo branco fala de velhice. É como se Jesus descrevesse a pessoa ansiosa gastando suas forças pensando na velhice que ainda não chegou — ou lamentando a juventude que já passou. E não se trata só do adolescente ansioso para virar logo adulto, dirigir, casar, votar; nem só do idoso querendo parecer jovem e adiar o envelhecimento a qualquer preço.
Jesus está descrevendo algo mais profundo: situações sobre as quais nós não temos controle. Pense em quantas coisas escapam totalmente das nossas mãos:
A ansiedade é justamente a tentativa exaustiva de controlar pela mente aquilo que as nossas mãos não alcançam. É correr muito sem sair do lugar.
Repare na genialidade do Mestre. Para curar quem faz demais, Ele aponta como modelo justamente aquilo que nada faz para resolver os próprios problemas — porque o próprio Deus os resolve:
“Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta.” — Mateus 6:26
“Considerai os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam. E digo-vos que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles.” — Mateus 6:28-29
Veja o contraste: o lírio não trabalha nem costura — e Deus o veste. A ave não semeia, não colhe, não armazena — e Deus a alimenta. Tudo o que a ave e o lírio NÃO fazem é exatamente tudo o que nós passamos a vida fazendo.
Atenção: Jesus não está dizendo que não devemos trabalhar. Ele está nos chamando a colocar os olhos muito mais na dependência do que Deus faz do que na confiança naquilo que nós fazemos. O problema não é a nossa ação — é a nossa ilusão de que tudo depende dela.
Isso ecoa perfeitamente o salmo:
“Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados ele o dá enquanto dormem.” — Salmo 127:2
O salmo descreve exatamente a pessoa ansiosa: aquela que sente o peso de estar sempre fazendo algo, trabalhando sem parar, sem conseguir nem descansar no agir de Deus. E a Palavra responde: Deus abençoa os seus enquanto eles dormem.
Esta é a chave de todo o ensino. Depois de falar das aves e dos lírios, Jesus faz duas perguntas que mudam tudo:
“Não tendes vós muito mais valor do que elas?” (sobre as aves) — Mateus 6:26
“não vos vestirá Ele muito mais a vós?” (sobre os lírios) — Mateus 6:30
O raciocínio é lindo: se Deus cuida com tanto esmero de quem vale menos aos Seus olhos, quanto mais Ele cuidará de você, que vale tanto? Eu preciso ter consciência do meu valor diante de Deus.
Deus jamais permitirá uma situação para me destruir.
Tudo o que Ele permite é para cooperar para o meu bem.
“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus.” — Romanos 8:28
As situações difíceis não deveriam nos afastar de Deus — deveriam nos aproximar. Elas deveriam nos fazer orar mais, jejuar mais, buscar mais, porque é d'Ele que vem a fonte máxima de todas as nossas soluções.
“Mas buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” — Mateus 6:33
Jesus não prometeu uma vida sem problemas. Pelo contrário — Ele afirmou que haverá:
“Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” — Mateus 6:34
O que Jesus quis dizer é simples e libertador: se o problema não está na sua mão para ser resolvido hoje, durma tranquilo e deixe nas mãos de Deus. Não traga para hoje um peso que pertence ao amanhã — e que talvez nem exista.
A grande lição é dura e doce ao mesmo tempo: todo o nosso pensamento, todo o nosso trabalho, todo o nosso esforço, sem Deus, pode ser completamente inútil. Podemos passar a vida correndo, batendo o pé, conferindo o celular, ensaiando tragédias — e colher muito pouco.
Mas existe outro jeito de andar. Podemos viver uma vida muito mais leve, descansando na vontade, na bondade e no amor de Deus por nós. Não porque deixaremos de agir, mas porque finalmente entenderemos quem sustenta o resultado.
A ave não sabe de onde virá o alimento de amanhã.
Mas ela voa, canta e dorme — porque conhece quem a alimenta.
Você vale muito mais do que ela.
“Lançando sobre Ele toda a vossa ansiedade, porque Ele tem cuidado de vós.” — 1 Pedro 5:7
Pr. Agnaldo Alves do Carmo Jr.
🤍