Os três meios que Deus usa para forjar o coração de quem foi chamado: o Espírito, o sofrimento e o fracasso.
Atos 9:16 — “Eu lhe mostrarei o quanto lhe será necessário sofrer pelo meu nome.”
Estamos vivendo um mês todo dedicado a um único tema na Igreja Tenda da Presença de Deus: a nossa missão. No primeiro domingo de maio olhamos para o apóstolo Paulo logo após a sua conversão no caminho de Damasco, e Deus nos despertou para três verdades que precisam estar gravadas no coração de cada cristão:
Existe sofrimento dentro da missão. E talvez essa seja exatamente uma das maiores razões pelas quais precisamos estar treinados e preparados antes de sermos enviados.
“Saulo, irmão, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me para que tornes a ver e fiques cheio do Espírito Santo.” — Atos 9:17
Quando Ananias chega à casa de Judas para impor as mãos sobre Paulo, observe que as duas primeiras coisas dadas ao apóstolo são exatamente estas:
Não é coincidência que essas duas coisas venham juntas e venham primeiro. Sem visão o povo perece (Pv 29:18) e sem o Espírito não há um único passo missionário que possa ser dado. Foi assim com os apóstolos: “Recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas” (At 1:8).
Eu não acredito em Espírito Santo vindo sobre nós para nada fazermos. O Espírito não é um fim em si mesmo — Ele é o combustível para a obra. Onde Ele desce, alguém é despertado, alguém é enviado, alguém começa a se mover.
Mas o treinamento não termina aí. Lendo cuidadosamente as cartas de Paulo, descobrimos que uma das primeiras coisas que ele faz após a conversão é se retirar:
“Não consultei carne nem sangue... fui logo para a Arábia, e voltei outra vez para Damasco.” — Gálatas 1:16-17
Antes do palco, o deserto. Antes da multidão, a solidão.
O Deserto da Arábia não é uma escolha turística. Deserto fala de:
Ninguém gosta de estar lá. Mas existe um padrão claro nas Escrituras: antes do envio, o deserto. Antes da plataforma, a privação.
Por que Deus faz assim?
“Embora sendo Filho, aprendeu a obediência por meio daquilo que sofreu.” — Hebreus 5:8
Se o próprio Cristo aprendeu o caminho da obediência pelas coisas que sofreu, quanto mais nós? Deus nos treina através do sofrimento justamente para que possamos suportar o futuro. O sofrimento de hoje é a musculatura espiritual de amanhã. A privação de agora é o que vai te sustentar quando a multidão vier e a tentação do orgulho bater à porta.
Tiago confirma: “Tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança” (Tg 1:2-3).
E Paulo, já no fim da vida, escreve à igreja em Roma com a clareza de quem aprendeu na pele:
“A tribulação produz perseverança; a perseverança, experiência aprovada; e esta, esperança.” — Romanos 5:3-4
Há gente sendo treinada pelo Espírito agora mesmo, em cama de hospital, em conta no vermelho, em casamento difícil, em filho rebelde, em ministério que não cresce. Não desperdice o seu deserto.
Aqui está uma verdade incômoda que poucos ensinam: Deus permite o fracasso.
Paulo saiu de cidades inteiras sem deixar nenhum convertido sequer. Em Atenas, depois de pregar no Areópago com toda a sabedoria filosófica que podia mobilizar, lemos:
“Houve, porém, alguns que, juntando-se com ele, creram.” — Atos 17:34
Apenas alguns. Na cidade mais culta do mundo conhecido. Paulo deve ter sentido aquilo como um fracasso. E mesmo assim seguiu para Corinto, sem se paralisar, e ali Deus abriu a porta de uma das igrejas mais frutíferas do Novo Testamento.
Veja como Jesus mesmo permite o fracasso na formação dos discípulos:
🌊 Pedro afunda ao tentar andar sobre as águas (Mt 14:28-31). Ele teve fé suficiente para sair do barco — mais do que os outros onze juntos — mas no meio do caminho desviou os olhos do Mestre e começou a afundar. “Homem de pequena fé, por que duvidaste?” Jesus poderia ter impedido o fracasso. Não impediu. Deixou Pedro provar a fragilidade da própria fé para que aprendesse a depender só dEle.
😈 Os discípulos fracassam ao tentar expulsar um demônio (Mt 17:14-21). O pai do menino diz: “Eu o trouxe aos teus discípulos, e eles não puderam curá-lo.” Que vergonha pública. Mas é exatamente nesse fracasso que Jesus os ensina: “Esta casta não se expulsa senão por oração e jejum.” O fracasso virou aula. A vergonha virou método.
🐟 A pesca fracassada de Pedro (Lc 5:5). “Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos.” Jesus permite a noite vazia para que a manhã do milagre tivesse o peso do contraste.
O fracasso bem processado é uma das ferramentas mais poderosas de Deus. Ele expõe nossa autossuficiência, nos curva à dependência e nos prepara para o próximo ato.
Não podemos ficar paralisados nas primeiras experiências de fracasso. Não podemos confundir uma queda com a sentença final. Salomão escreveu:
“Sete vezes cairá o justo, e se levantará.” — Provérbios 24:16
A diferença entre o justo e o ímpio aqui não é que o justo não cai — é que ele se levanta. Sete vezes, se for preciso. O ímpio cai uma vez e fica.
Resumindo os três meios que Deus usa:
Esses três meios não são acidentes na sua história — são currículo. Deus está te formando. O Espírito te capacita, o deserto te molda, o fracasso te ensina humildade. E cada um deles tem um propósito claro: te preparar para a missão.
Paulo terminou a carreira dizendo: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4:7). Ele só pôde dizer isso porque foi treinado primeiro. A coroa que ele esperava era fruto do treinamento, não atalho dele.
Hoje Deus quer te perguntar três coisas:
“Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus.”
— Filipenses 1:6
Que neste mês de maio possamos não apenas ouvir sobre a missão — mas sermos despertados, treinados e enviados por Aquele que começou tudo em nós.
🙏